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Para onde nos levará a estratégia de Lula

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*Por Edilson Silva

ARTIGO – O ex-presidente Lula esteve recentemente no Recife, em seu “giro pelo Brasil”. Como fez em outros Estados, trabalhou sua imagem de líder popular carismático e sua raiz operária. Mas também contemplou a sua agenda eleitoral pragmática. Por onde passou, fez questão de afirmar que sua possível candidatura e vitória eleitoral serão lastreadas com uma ampla base de apoio político, com Kátia Abreu, Renan Calheiros, Sarney e o PSB do governador Paulo Câmara.

Os defensores desta estratégia dizem que é preciso construir uma coalização político-eleitoral que garanta uma base sólida para sustentar sua candidatura nos Estados e para se ter tempo de TV. Dizem que o avanço da Direita mais extremada, nas candidaturas de Bolsonaro e Dória, justificariam esta estratégia e que as forças de esquerda, sozinhas, seriam incapazes de derrotar eleitoralmente esse avanço. Há alguma lógica nisso, mas apenas eleitoral. E política é muito mais que isto, como nos mostrou, mais uma vez, o Brasil pós 2013.

A democracia é um organismo vivo, dinâmico e rebelde. É regime de conquista e não de concessões, em que a correlação de forças na disputa real de interesses e ideias determina os acordos possíveis, as derrotas e vitórias de campos em conflito. Mesmo as eleições são parte destas conquistas, como nos ensinou, de novo, o impeachment da presidenta Dilma. O contrato social que temos e todas as suas nossas normas jurídicas são fruto de uma luta social e política, que se dá na sociedade civil e nos espaços do Estado.

Lula erra ao subestimar demais a luta social e política na correlação de forças e na disputa de hegemonia na sociedade, enquanto superestima demais o poder das maiorias parlamentares e os acordos políticos de cúpula. Um amigo do MTST, Rudrigo Rafael, escreveu corretamente que “Lula não tá na esfera da política, ascendeu à dimensão da cultura como expressão da revolução possível dentro das regras do jogo da sociedade brasileira”. Rudrigo está certo. E é por estar mergulhado nesta condição que Lula insiste numa estratégia equivocada.

Talvez por esta condição, de líder carismático, Lula deixe escapar a versão de que o governo Dilma caiu por sua incapacidade de liderar negociações com o Congresso, por não ter colocado Henrique Meireles ao invés de Joaquim Levi no comando da economia. Mas o erro de Dilma, visível, foi não ter transformado em mobilização popular de apoio ao seu governo a força social e política das ruas, que derrotou eleitoralmente Aécio Neves no segundo turno. Se era pra cair, que fosse resistindo na defesa de uma política com um mínimo de radicalidade em favor de pautas estruturais.

Mas o que restou para as forças progressistas da sociedade se mobilizarem na defesa do mandato de Dilma foi o respeito à legalidade, aos seus votos, ao ritual democrático que a conduziu à Presidência, a denúncia do golpe flagrante. Lamentavelmente, um erro anterior, grosseiro, já estava instalado na cadeira da vice-presidência, à espreita, e respondia pelo nome de Michel Temer, fruto da mesma estratégia eleitoral que Lula agora reapresenta ao povo brasileiro.

O caso de Pernambuco é pedagógico para o que tratamos aqui. A unidade de Lula e do PT com o PSB de Paulo Câmara será um fator de desmobilização popular, pois aqui há uma esquerda social forte, aguerrida, militante, que foi às ruas no segundo turno de 2014 para derrotar o palanque conservador que Aécio Neves montou no Estado, com o governador e o senador eleitos no primeiro turno com quase 70% dos votos, com uma maioria de deputados federais e estaduais eleitos e pelo prefeito do Recife. E o PT sem deputados federais eleitos.

O PSOL em Pernambuco, corretamente, definiu apoio à candidatura de Dilma no segundo turno, para derrotar Aécio Neves. Somou-se a outras lideranças partidárias e incontáveis militantes anônimos, trabalhadores, estudantes, aposentados, que voluntariamente ocuparam as ruas e fizeram aquele segundo turno se parecer com a campanha de Lula em 1989. Resultado: Dilma venceu com 70,2% dos votos no Estado.

O PSB, que tem seu núcleo dirigente em Pernambuco, foi o fiel da balança e articulador do golpe que derrubou o governo da Presidenta Dilma. Os votos do PSB naquele impeachment foram imprescindíveis. E mais uma vez a militância social foi convocada e não faltou à luta nas ruas para marchar contra o impeachment, se enfrentando contra a oligarquia dos Campos e a forte campanha feita pela base do governo estadual contra o governo da Presidenta Dilma. Foram vitoriosos na sua empreitada revanchista e antirrepublicana.

Mas não é só por isso que é um erro a estratégia de aliar-se ao governador Paulo Câmara. É fato que o governo do PSB em Pernambuco é antipopular. Vivemos um caos na segurança pública, com media atual de quase 500 homicídios por mês, sem que se tome medidas de real enfrentamento a isso, mas ao contrário, o governo atua para esconder os números e deslegitimar o pouco controle social existente, como o Conselho Estadual de Direitos Humanos que está há quase três meses sem tomar posse.

É um governo que privatiza a saúde pública, via OSs, drenando recursos para as unidades de atendimento que são controladas por amigos do poder. O governo frauda as estatísticas e trabalha com uma máquina milionária de publicidade para apresentar a educação pública do Estado como uma das melhores do Brasil. O governo patrocina a flexibilização da legislação ambiental e assisti inerte e conivente a desertificação do semiárido e o desaparecimento da caatinga. Não cabe num texto objetivo o balanço mais adequado deste governo antipopular.

Por fim, a vitória desta estratégia de Lula poderá deixar um vácuo das esquerdas nas lutas sociais, nas ruas do país, pois com Renan, Sarney, Kátia Abreu e Paulo Câmara, não haverá governo que enfrente de fato a ganância dos banqueiros, o poder do latifúndio, os monopólios nas comunicações, as oligarquias corruptas e as forças conservadoras. Este vácuo nas lutas e nas ruas do país não ficará vazio. As forças fascistas, pois a direita que vai pra rua é extremada e já mostrou desapego a valores republicanos, vão ocupar este espaço, na oposição. Este cenário é sombrio.

Que caminho seguir, então? A resposta não é simples, mas o trajeto mais acertado nos leva a construir uma unidade entre as forças políticas e sociais realmente progressistas, republicanas e democráticas, comprometidas com a transformação radical das estruturas que oprimem nosso povo, com a vontade e disposição de luta das das juventudes, dos que vivem do seu trabalho, das cidadãs e cidadãos que ocupam o território político para além dos eventos eleitorais e que fazem a correlação de forças entre as classes pender para o lado da cidadania popular.

Edilson Silva é deputado estadual por Pernambuco e membro do Diretório Nacional do PSOL.

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