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No 15º dia, caravana de Lula visita e une mitos do Nordeste

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Padre Cícero, Luiz Gonzaga, o rei do baião, e Luiz Inácio da Silva. O roteiro da caravana Lula pelo Brasil, que nesta quinta-feira (31) percorreu cerca de 140 quilômetros, reuniu em um só dia três das maiores referências do povo nordestino.

RBA – Logo pela manhã, o ex-presidente, acompanhado de uma comitiva reduzida, deixou o hotel em que passou a noite, em Juazeiro do Norte, e seguiu até a capela Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde estão os restos mortais do “padim Ciço”, ainda hoje uma das maiores referências religiosas do povo nordestino. De lá, seguiu para Exu, num breve retorno ao estado de Pernambuco, para visitar o Museu Gonzagão, que dedicado à vida e obra de outro ícone saído do Nordeste, o sanfoneiro e compositor Luiz Gonzaga. No fim da tarde, Lula participaria de mais um ato público, desta vez em Ouricuri (PE), na Praça Voluntários da Pátria, município que também pertence a Pernambuco – o trajeto do sul do Ceará ao Piauí recorta uma área do oeste de Pernambuco.

O dia foi mais reservado, já que na quarta-feira anterior a viagem entre as cidades cearenses de Quixadá e Juazeiro do Norte teve início por volta de 10h e acabou quando já era mais de 20h – um percurso, de 325 quilômetros, que poderia ser feito em cerca de cinco horas. Com a caravana parando oito vezes durante o trajeto – para que Lula pudesse abraçar e falar ao povo, que desde o início da caravana se organiza espontaneamente para vê-lo e ouvi-lo – o deslocamento durou o dia todo. Já em Crato, à noite, Lula recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Regional do Cariri, em cerimônia seguida de ato político que terminou à meia noite e meia.

“Muita coisa até para um homem com a força de Lula”, comentavam integrantes da caravana, que chegou nesta quinta-feira ao 14º dia. “Ele não sabe dizer não ao povo que o colocou no mesmo patamar desses outros dois grandes ícones nordestinos: Padre Cícero e Luiz Gonzaga.”

O homem e o mito

Realmente beira à idolatria o que se vê, principalmente nas cidades menores e no sertão nordestino, durante as passagens da caravana. As pessoas se contentam até em abraçar outros integrantes, na falta de conseguir chegar mais perto de Lula. Quem alcança o feito, sai pulando e comemorando aos gritos, seja um abraço, um aceno, ter encostado a mão nele ou as disputadas selfies.

Elicio, transportador autônomo e devoto de Padre Cícero: ‘se não fosse o Lula, muita gente tinha morrido de fome’
Tudo isso, que pode até parecer exagero, fica fácil de compreender em poucos minutos de conversa com esse povo que vê em Lula a lembrança de dias melhores e esperança de poder permanecer na sua terra, com dignidade.

“Pra mim é Deus no céu e Lula na terra” é uma frase que já se tornou corriqueira, assim como “o pai dos pobres”, “nosso painho”, “só ele para olhar por nós”. Mas toda essa devoção é sempre devidamente explicadas, ainda que não com dados e estatísticas.

Famílias que se desintegravam a cada seca, forçadas a buscar trabalho onde fosse possível, ganharam tempo até a próxima chuva, com a água que está armazenada nas milhares de cisternas que passaram a integrar a paisagem do sertão – entre 2003, primeiro ano de governo de Lula, e 2015 foram construídas cerca de 1,2 milhão de cisternas no País, das quais 1,09 milhão no Nordeste.

Mulheres e homens que passaram fome, passaram a ver seus filhos se alimentando regularmente, por conta de programas sociais como o Bolsa Família, que chegou a beneficiar 22 milhões de pessoas somente no Nordeste, quase metade dos 45 milhões de pessoas alcançadas no país, antes dos cortes promovidos pelo governo de Michel Temer.

Jovens que chegaram a uma das 18 universidades ou 282 escolas técnicas criadas durante os governos Lula e Dilma, espalhadas inclusive pelo interior do país. Crianças antes marginalizadas que se encontraram com a educação nesses institutos federais e viraram profissionais. Pessoas, que não conhecem esses números, mas tiveram suas vidas transformadas por eles.

É por feitos assim que, na região percorrida pela caravana nos últimos dias, que vai de Salvador ao sertão do Cariri, é comum ver nas casas das pessoas mais humildes uma foto do “padim” (Padre Cícero) ao lado da do “painho” Lula.

A comerciante Juvenilde Siqueira faz as contas: economia local sofre com os cortes de Temer no Bolsa Família
Caso de Elício Leite de Carvalho, pernambucano de Terra Nova, que trabalha com transporte autônomo. “Sou natural de Pernambuco e devoto de Padre Cícero, que foi um padre que juntou a maior população do Brasil. Ele tem muitos devotos. Ele é que nem o Lula. Se não fosse o Lula, muita gente já tinha morrido de fome. A gente não tinha condições de comprar uma bicicleta e hoje todo mundo tem um carro, uma moto, tem o Bolsa Família, tudo, e antes a gente não tinha isso.”

Juvenil de Macedo Borges Siqueira, comerciante na cidade de Ouricuri há 30 anos, diz que, diferentemente de alguns anos atrás, a vida do povo pobre do nordeste dá sinais de um novo ciclo de durezas.

“Aqui tá muito difícil, principalmente depois dos cortes do Bolsa Família. Ouvi falar que de janeiro pra cá, cortaram mais de 1 milhão de bolsas. E a gente está sentindo isso no comércio, que vem fracassando cada dia mais. Isso sem falar na seca.São sete anos de seca e a gente enfrentando aí só com a ajuda de Deus. Eu gosto do Padre Cícero, faço visita lá a ele, sou devota dele, e a gente alcança a fé e Deus atende os pedidos, através da nossa obediência e da fé, e vamos levando a vida.”

Voz

O ato público em Ouricuri, no sertão pernambucano, voltou a reunir, como já de costume, milhares de pessoas. Na praça na Praça Voluntários da Pátria, Lula ouviu poemas de cordel, entoadas e demonstrações de carinho de todos os tipos.

Acompanhado, entre outros, do senador Humberto Costa (PT) e do deputado Silvio Costa (PTdoB), ele afirmou que, apesar do golpe que completou um ano, “esse país vai voltar a sorrir, as pessoas vão voltar a sonhar e a ter esperança”.

Lula voltou a denunciar, com a voz bastante rouca, o retrocesso, a privatização de empresas públicas estratégicas e o ataque a direitos que marcam o governo de Michel Temer, além de ressaltar as políticas sociais de seu mandato. “Educação não é gasto, é investimento, é investir nas crianças, que são o futuro desse país. O Nordeste atingiu 1,6 milhões de jovens nas universidades”, afirmou.

O prefeito de Ouricuri, Ricardo Ramos, que é do PSDB, homenageou o ex-presidente. Ramos agradeceu “a tudo o que Lula fez” e o presenteou com a bandeira da cidade e um gibão, vestimenta típica do vaqueiro nordestino.

O dia foi encerrado em Araripina, ainda em território pernambucano, onde a caravana passaria a noite. Novamente, uma multidão aguardava o ex-presidente. A engenheira agrônoma Brenda Granger, de 29 anos, levou a filha Maria Cecília, de 1 ano e 9 meses. “Acho muito importante ela conhecer desde pequena o cenário da política do Brasil, pra que ela aprenda a tomar as decisões certas futuramente.”

A caravana prossegue nesta sexta sua jornada ao penúltimo estado do roteiro, chegando a Marcolândia, para o ato “Mais Energia Para o Brasil e para o Piauí Crescer”, no Complexo Eólico Chapada do Piauí. Depois toma a estrada para Picos – com suas prováveis inúmeras paradas pelo caminho –, importante polo de desenvolvimento do estado que já foi o maior exportador do país no século 19. No sábado, na cidade campeã nacional de produção de mel, o ex-presidente participa do evento “Empreendedorismo para Mais Emprego”, na Casa Apis.

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